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segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Coquetel Molotov


Neste último artigo de 2012, queria deixar uma mensagem de esperança. Não sou uma pessoa adequada para o fazer porque 1) sou considerado como uma pessoa pessimista e 2) tenho muito pouca fé no poder das palavras. As palavras são manipuláveis e, cada vez mais, não expressam uma acção ou uma realidade. Nem sequer processos de boas intenções...

Mas gostaria de deixar na mesma uma mensagem de paz e esperança, adequada às festividades desta época. Por isso vou escrever um artigo sobre a invenção do Coquetel Molotov!

O coquetel Molotov foi inventado pelos finlandeses aquando da invasão da União Soviética a este país em 1939. Perante a falta de recursos militares para parar a ofensiva do gigante miltar soviético, os finlandeses criaram esta arma, baptizando-a com o nome do Comissário para as Relações Externas da URSS, Vyacheslav Molotov. Mesmo perante o poderio militar dos soviéticos, o engenho dos finlandeses impediu a ocupação deste país que hoje é um dos mais desenvolvidos da União Europeia.

Lembrei-me do coquetel Molotov, quando assisti, no âmbito da Feira Social de Corroios, à celebração do primeiro aniversário da Loja Social de Corroios. Este é um espaço que visa apoiar famílias carenciadas da Freguesia de Corroios com bens de diversos tipos, de forma a suprir as suas maiores necessidades. Este projecto está ligado por sua vez a outras iniciativas como o Banco do Tempo ou a acções de formação Pro Emprego.

A Loja Social de Corroios é um projecto muito simples (tal como o coquetel Molotov...), com objectivos muito simples e cuja implementação foi fácil. Se pensarmos na sua fórmula, parece quase como um pudim instantâneo (mais uma vez, tal como o coquetel Molotov...).

Porém a concretização deste projecto, depende de alguns factores mas o que gostaria de salientar neste projecto é a importância da participação cívica das pessoas e das organizações em parceria para a resolução dos problemas das pessoas. Mas mais do que resolver, iniciativas como a Loja Social e o Banco do Tempo assentam numa abordagem proactiva das políticas sociais onde o cidadão tem um papel fundamental.

Porém não se ganham guerras com coqueteis Molotov... os finlandeses sabiam que podiam travar temporariamente os soviéticos mas não para sempre... em 1940, os dois países assinam um tratado de paz, havendo a cedência para a URSS de parte do território finlandês.

O mesmo se aplica às políticas sociais - os que defendem o voluntariado como uma solução low cost exclusiva para todos os problemas sociais estão profundamente enganados. É preciso um exército treinado e com armas para ganhar uma guerra. Se não existem recursos infra-estruturais , legais, logísticos ou humanos... as políticas sociais não irão surtir efeitos, tanto a curto como a longo prazo. No entanto, é fundamental para sustentabilidade das estruturas de apoio social que hajam projectos assentes na participação activa dos cidadãos.

Para finalizar, gostaria de desejar a todos os leitores, um 2012 cheio de coragem e vontade de viver. Até para o ano - falta pouco!

domingo, agosto 28, 2011

Fantasias Europeias II: os gordos da Europa


Angela Merkel, em plena campanha para as eleições regionais da Alemanha, lembrou-se de afirmar que a idade da reforma e os períodos de férias deveriam ser iguais em toda a Europa, numa crítica directa ao estatuto dos Gregos, Espanhóis e Portugueses. Embora todos vissem que isto era uma manobra demagógica - até os próprios alemães - Angela Merkel sabia que tinha de dizer isto em território germânico - ficava-lhe bem. Da mesma forma que Paulo Portas denuncia os abusos do rendimento social de inserção, Angela Merkel ataca os Países do Sul - é tudo uma questão de cadeia alimentar...

Há um acrónimo que identifica os membros mais pobres da zona Euro - PIGS: Portugal, Itália, Grécia e E(S)panha. PIGS - nós somos os porcos da Europa. Um porco é um animal associado a um estereótipo de gula e sujidade. Nas declarações de Angela Merkel, está implicíta a ideia de laxismo e preguiça dos “porcos” da Europa, sendo a riqueza da Europa produzida pelos Estados Centrais da União Europeia, nomeadamente pela Alemanha. Quando pensamos na Alemanha, vem-nos à cabeça ideias como organização... trabalho... riqueza... o oposto daquilo que se pensa quando falamos sobre Portugal - um país gordo como um porco!

No canal televisivo SIC, surgiu um reality show que se baseia num concurso onde pessoas com excesso de peso que concorrem para perder o máximo de peso, estando em concorrência no combate à obesidade - o título em inglês ilustra a ideia do programa e que me faz reflectir sobre os problemas estruturais que Portugal enfrenta neste momento: The biggest loser (O maior perdedor).

Para os restantes europeus, os Portugueses são os gordos da Europa - aqueles que não trabalham e que consumiram demasiadas calorias. Aqueles que têm que trabalhar mais o físico e comer menos - uma visão simplificadora. Ou simplista...

Ora, o problema da obesidade resolve-se de muitas maneiras mas sabe-se que há muitos mitos sobre esta questão. E entre esses mitos os que predominam e prevalecem são as dietas rápidas que normalmente têm um resultado inverso - aumenta-se de peso. Por outro lado, o que é mais importante perder peso ou deixar de fumar? Perder peso é importante e o excesso de peso provoca outros problemas mas qual é a importância deste problema comparando com outros problemas... ser gordo é ter uma doença terminal?

O mesmo se aplica aos diversos desequilíbrios económicos de um País - podemos comer menos (cortar na despesa...) ou comer melhor (apostar no investimento reprodutivo...), fazer exercício físico (pôr a economia mais activa e produtiva). Tudo depende do País tomado na sua perspectiva global, sendo que há muitos factores que concorrem para a resolução do problema do défice externo e da dívida pública: a geografia, a história, os recursos naturais, a população, o sistema educativo... tanta coisa.

Por exemplo: eu sou gordo e sei que tenho de emagrecer mas sei que isto implica força de vontade e consequente trabalho. Porém... Sei que para resolver este problema preciso de tempo. E o mesmo se aplica a Portugal...

O problema é que Portugal não tem tempo... relaxou, desde o tiro de partida desta corrida (entrada para a então Comunidade Económica Europeia) e agora tem de recuperar o tempo perdido rapidamente. Ou seja: Portugal tem de fazer a dieta de Duncan!

Há outra alternativa? Haver, há... mas os portugueses têm optado democraticamente por esta via que estamos a atravessar... por isso, em rigor, nao nos podemos queixar porque chegámos a um ponto onde só se engana quem se quer enganar - está na hora de suar!

domingo, junho 26, 2011

Fantasias Europeias: a idiossincrasia da “manada”

1) Há um vídeo viral que tem aproximadamente 8 minutos e popularizou-se na Internet e que sintetiza, na minha opinião, os problemas centrais da União Europeia - o parque Kruger situa-se na África do Sul foi palco de um episódio da vida de uma manada de búfalos africanos perante um ataque de um grupo de leões. A manada aproximava-se da água e é surpreendida por uma ataque dos predadores leoninos - os búfalos fogem e dispersam. Um dos elementos mais novos não consegue fugir, é derrubado e acaba por cair na água. Ao cair na água, aproxima-se um crocodilo que tenta apropriar-se da presa. Os leões acabam por ficar com a presa e arrastá-la para terra. Quando os leões preparam-se para matar finalmente o jovem búfalo acontece um volte-face e resurge a manada de búfalos que atacam os leões, salvando o seu membro vulnerável. Os leões, perante o ataque em massa dos búfalos, debandam em pânico.

2) A Grécia, a Irlanda e Portugal são os elementos mais vulneráveis da manada europeia - as razões pelas quais estes países são diversas e dependem da visão ideológica do analista. Mas algo é objectivo: estes três países são estruturalmente diferentes nas políticas económicas que desenvolviam anteriormente ao colapso financeiro que obrigou ao pedido de ajuda. Há uma coisa que estes países têm em comum: são da periferia. Também parece claro que há um ataque especulativo sobre os juros da dívida pública, aproveitando o momento e a necessidade dos Estados para compensar os desequilíbrios do próprio sistema financeiro global que teve um impacto em todas as economias do Mundo.

Agora a questão que se coloca é - cada um fica para trás, o que é que os outros fazem? deixam-no para trás ou ajudam-no? A resposta parece fácil mas a prática mostra o contrária. O búfalo jovem seria preguiçoso e não trabalha... qualquer esforço para salvar a nossa pele será sempre mais importante...

A verdade é que a Europa tem várias velocidades motorizadas por diferentes interesses, muitas vezes, ocultos. Os países não são diferentes das pessoas - a Real Politik faz parte do quotidiano das pessoas individuais. Os seres humanos não são perfeitos - consequentemente, os países também não o são. Se as pessoas podem ser cobardes, fraquezas e mesquinhas... também as mesmas falhas podem ser encontradas na postura dos países que, em vez de se solidarizarem, fogem. Afinal, a vida de um búfalo não é fácil...

3) Francisco Lucas Pires, pai do jornalista/escritor Jacinto Lucas Pires, foi um dos líderes emblemáticos do CDS, antes deste partido se ter tornado em CDS/PP. Falecido em 1998, Lucas Pires era um europeísta convicto, convicção essa que o afasta do próprio CDS que, na altura, assumia um posicionamento eurocéptico. Ele, a uma certa altura, escreveu e afirmou o projecto europeu na premissa que os países europeus partilhavam um património cultural e histórico - na sua opinião, havia uma idiossincrasia europeia. Descansem - idiossincrasia está no dicionário...

Pensando naquilo que Lucas Pires, surge-me uma expressão em inglês que tenho muita dificuldade em traduzir - wishful thinking: um optimismo naif. Esta esperança idealista e ingénua desmoronou... a ideia de Europa é suportada pelos ricos e quando os ricos mandam... os pobres obedecem. E tal como Mussolini dizia - obedece porque deves obedecer. E verdade seja dita: Portugal, a Grécia e a Irlanda puseram-se a jeito...

quarta-feira, maio 04, 2011

Tens tempo?


Há uma expressão, impregnada de ironia, que eu, frequentemente, utilizo em contexto informal. Se alguém me pergunta se eu, por exemplo, já comprei um carro novo ou fui de férias para algum local exótico, eu respondo: "Não tenho tempo..."

A minha "falta de tempo" não se refere ao tempo cronológico mas sim à falta de dinheiro... surrealismo dos pobres, dirão alguns, enfim é a Vida!

Esta piada é frequente - torna-se ainda mais frequente quando enfrentamos uma crise financeira grave. Talvez a mais grave que o sistema económico internacional terá enfrentado. É difícil entender a amplitude e o impacto do fenómeno. Mas uma coisa temos que ter consciência: temos que agir. E porquê? Porque não temos tempo...

Mas é possível agir sem dinheiro? A resposta é sim e passa pela activação do cidadão enquanto agente promotor da coesão social. A famosa máxima de Kennedy "Não perguntes o que é que o teu país pode fazer por ti. Em vez disso, pensa sobre o que podes fazer por ele." aplica-se porque todos podemos fazer algo. E reparem que eu utilizei o verbo fazer e não o verbo falar. E dentro do verbo fazer está subjacente outro verbo igualmente difícil e complexo - o verbo participar.

A importância do voluntariado nas organizações do terceiro sector é crucial para a resolução dos problemas sociais contemporâneos. É preciso que as pessoas façam coisas - é preciso ajam sobre a realidade e transformem-na. É preciso romper com o conformismo e com o "deixa andar...". Há que reflectir, há que haver acção, há que mudar o estado das coisas.

A mudança não está na mãos dos políticos. A mudança está na mão dos cidadãos. A mudança está nas nossas mãos. Sendo que nós, cidadãos, somos políticos com um "P" maiúsculo. Por mais que alguns políticos possam falar, Solidariedade é, de facto, geradora de riqueza económica. O País deixará de ser mais pobre quando neste país houverem menos pobres.

No Seixal, a Participação e Solidariedade são possíveis porque há uma variedade enorme de organizações que abordam tratam tantas e tão diferentes temáticas. Organizações que precisam de pessoas que queiram colaborar voluntariamente para a prossecução da sua missão. Pode-se criticar esta autarquia em diferentes aspectos, mas há políticos e técnicos preocupados com a dinâmica associativa. Por isso é possível. Não é fácil, implica trabalho mas é possível.

Julgo ser importante que haja igualmente uma reflexão e adopção de actividades para a activação e responsabilização do cidadão na resolução dos problemas sociais do concelho. Estas pessoas têm de ter tempo (e não estou a falar de dinheiro...) porque os problemas sociais de uma comunidade, não são os problemas de um grupo ou minoria. Estes problemas não são problemas de alguns; são problemas de todos que colectivamente temos de intervir. E porquê? Porque o tempo é pouco...

Era importante que surja uma forma de promover, sistematizar e disseminar as diferentes oportunidades de Voluntariado, assim como de outras formas de colaborar ou ajudar as diferentes organizações sem fins lucrativos deste município. A ideia de um centro de apoio ao voluntariado do Seixal é algo que se discute e que pode potenciar a dinâmica das diferentes organizações, revitalizando e renovando os quadros das associações, colectividades ou IPSS - a natureza, os objectivos ou os processos de gestão podem ser perspectivados de diferentes formas para esta rede mas uma coisa parece-me óbvia: este centro de apoio ao Voluntariado no Seixal tem de avançar porque não temos tempo...

O que não há no Seixal - cabe à Câmara criar esse centro municipal de voluntariado? A resposta é muito simples - cabe a todos nós. E mais uma vez poder-se-á dizer: não é fácil, implica trabalho mas é possível

sábado, abril 16, 2011

Dormir melhor

Foi inaugurado o Centro de Apoio ao Movimento do Associativismo Juvenil e apresentado a proposta de regulamento interno deste equipamento. O CAMAJ era uma aspiração antiga das organizações juvenis e uma promessa eleitoral antiga da CDU para o concelho do Seixal. Muitos ficaram contentes mas o impacto deste equipamento na vida dos jovens do Seixal depende daquilo que fazemos no presente no e com o CAMAJ. Desta forma, a proposta de regulamento revela o que a Câmara Municipal do Seixal acha o que deve fazer neste momento com o equipamento municipal em epígrafe.

O regulamento começa no artigo 2 por enunciar os objectivos: “1) promover e estimular a criação de projectos e actividades do movimento associativo juvenil formal e não formal do concelho do Seixal; 2) disponibilizar à população juvenil um conjunto de valências específicas dirigidas às suas necessidades; 3) Incentivar o movimento associativo a criar parcerias entre si de forma a rentabilizar recursos, dando visibilidade ao trabalho desenvolvido; 4) fomentar o desenvolvimento do Associativismo juvenil no Concelho e consolidar o trabalho já existente” - Muito bem! A questão é como atingimos os objectivos...:

Todos sabemos das dificuldades dos tempos que correm. Todos também devemos ter consciência do esforço financeiro que um equipamento como CAMAJ deve implicar na sua criação e manutenção. Ora perante esta situação como é que aliviamos o esforço (porque os recursos são escassos...) e transformamos o esforço em investimento e o investimento em resultados efectivos e palpáveis para o município?

A resposta é simples: o modelo de gestão do equipamento tem de ser participativo e os utilizadores do equipamento (o movimento associativo juvenil) têm de ser um parceiro real, com responsabilidades e direitos na dinamização do equipamento. Esta discussão pode ser um acto de masturbação intelectual mas tem implicações práticas muito directas. Se a Câmara, por dificuldades estruturais, não conseguir garantir o horário de funcionamento - não há dinheiro, são necessários funcionários noutros serviços, etc... - o que é que acontece às valências do CAMAJ necessárias para as organizações cuja actividade não se encaixa no horário reduzido proposto pela entidade competente - a Câmara Municipal do Seixal.

Vou dar um exemplo: uma organização juvenil quer organizar uma actividade de formação e para adequar os horários tenta realizar a oficina em horário pós-laboral (vamos supor das 19:30 às 22:30..) para que trabalhadores e estudantes possam participar. Mas temos um problema - não se pode realizar depois das 22 horas - o horário não permite. E para que é que o funcionário está lá, em muitos dos casos? Para abrir e fechar uma porta. Com uma chave...

Para ser justo a autarquia pôs em prática a cedência de chaves às organizações juvenis para as Salas de Trabalho para as associações juvenis. E cabe às associações juvenis utilizarem regularmente as valências do equipamento, legitimando as reivindicações afirmadas em inúmeras reuniões, encontros e documentos.

As organizações juvenis não têm tecto para viver e não têm terra para trabalhar - é tão simples quanto isso. Não há um reconhecimento efectivo na Sociedade Portuguesa sobre a importância da escola de cidadania e empreendedorismo que é o associativismo juvenil. Embora os discursos dos políticos estejam “inundados” com palavras sobre os jovens, na prática, o reconhecimento real do papel dos jovens na Sociedade Portuguesa fica-se pelo Futebol e pouco mais.

Tempos difíceis aproximam-se... mais do que nunca, temos de criar soluções de compromisso e capacitar os agentes da sociedade civil na acção conjunta com um objectivo comum. Perante a dificuldade da autarquia em dar certas respostas que exigem flexibilidade, velocidade de resposta e imaginação, a Câmara Municipal do Seixal tem de pôr aqui em prática aquela palavra tantas vezes utilizada em discursos - parceria. Ora a palavra “Parceria” puxa a palavra “Confiança” e aqui coloca-se outra questão: a Câmara Municipal confia verdadeiramente nas associações juvenis, com as quais já trabalha?

Muita vezes fico com a impressão que faz-se o investimento na área da Juventude para aliviar a consciência de algumas pessoas e assim, no final do dia, puderem dormir melhor...

domingo, junho 27, 2010

Tenho um amigo fascista



Tenho um amigo fascista que é um dilema na minha vida. Passei a minha adolescência com ele. partilhámos piadas, conversas, problemas, crises, alegrias, sonhos, música... coisas que unem duas pessoas para o resto da vida. Coisas que, pelo menos, deveriam unir... dois amigos. Digo amigos também porque numa das mais importantes redes sociais na Internet do Mundo, ele é meu amigo.

Tenho um amigo fascista? Ele não se denomina como fascista - é um nacionalista! Defende a pátria e a sua pureza racial conspurcada pelos imigrantes, homossexuais, comunistas e outros que tais que destroem a "nação valente e imortal". Não sei se ele é meu inimigo mas, por eu ser de esquerda, ele vê-me como a sua némesis. Os problemas de Portugal começaram com o 25 de Abril de 1974. A guerra colonial, as eleições fraudulentas, a censura, as perseguições políticas, o estatuto jurídico inferior da mulher, o condicionamento corporativo da actividade económica... todos estes factos que caracterizavam o Portugal de então faziam de nós um país supostamente próspero e feliz. Supostamente... A memória de alguns é claramente uma interpretação fantasiosa de um país que só existiu na cabeça deles. No caso do meu amigo, nasceu depois do 25 de Abril e sempre que evoca as "glórias" de Salazar o que ele acaba por fazer é um elogio à democracia do 25 de Abril. Sempre.

Tenho um amigo fascista que vai contra quase tudo que eu defendo como ser humano - a ideia de Nação Portuguesa é uma invenção intercultural e a riqueza deste país depende do esforço colectivo daqueles que estão e os imigrantes em Portugal são parte da solução. Dizer que o Desemprego e a Insegurança são resultado da imigração em Portugal é um erro, motivado pela necessidade em encontrar culpados fáceis, evitando olhar para o problema e para as suas causas na sua essência. Tenho o prazer em trabalhar com portugueses e estrangeiros, sendo que a nossa diferença torna-nos efectivamente mais fortes, mais inteligentes e mais preparados para as mudanças que estão para vir... esta é uma verdade que vivencio todos os dias: eles - polacos, alemães, cabo-verdianos, guineenses, angolanos, turcos... - são a minha nação valente e imortal. E afirmo aos nacionalistas: Portugal tem poucos estrangeiros!

Tenho um amigo que sabe muito pouco sobre a História de Portugal (na qual ele tem supostamente um orgulho imenso...) e não quer saber que o ADN da nossa nacionalidade é o resultado de cruzamentos de culturas de várias paragens... e foram estes contributos que tornaram-nos uma "Nação Valente e Imortal". É incontável a lista de povos que estiveram naquilo que é hoje o território nacional, deixando nele patrimónios riquíssimos que contribuíram para a criação da identidade nacional lusitana. Os nacionalistas, quando celebram o 10 de Junho, esquecem-se da vida de Camões e provavelmente têm dificuldades em compreender o seu amor por Dinamene – que por ser estrangeira não tinha lugar no nosso País. Pergunto-me: como se pode ser nacionalista e defender o que um nacionalista defende depois de ler “Os Lusíadas”… Na verdade, os nacionalistas recusam-se a ver muitas coisas e não querem despertar para uma realidade bem mais cruel, para eles e para todos nós - eles não são nacionalistas, eles são fascistas.

Não consigo sentir o mesmo ódio que o meu amigo fascista tem por mim - Woody Guthrie, um cantautor americano que inspirou músicos como Bob Dylan ou Bruce Springsteen, tinha na sua guitarra a seguinte inscrição "Esta máquina mata fascistas". Eu, por sua vez, nunca fui capaz de dizer "Um bom fascista é um fascista morto!" e agora muito menos... afinal é meu amigo... ou pelo menos, era...

Tenho um amigo fascista? Não sei...

segunda-feira, setembro 14, 2009

Beautiful People



Rufem os tambores! Seixal é notícia nacional! Para além do Benfica e dos incidentes na Quinta da Princesa, o candidato Samuel Cruz do Partido Socialista convidou a modelo profissional Filipa de Castro, mais conhecida por ser ex-mulher do antigo capitão da equipa de futebol profissional sénior do Sporting Clube Portugal Beto!

Confesso que não sou a pessoa mais inteligente do Mundo mas a minha cabeça faz umas associações curiosas e, ao saber desta notícia, lembrei-me quase automaticamente de uma música dos Marilyn Manson que tem o título "Beautiful People" - na letra da música surge o seguinte texto: "The beautiful people, the beautiful people; Its all relative to the size of your steeple; You cant see the forest for the trees; You can't smell your own shit on your knees..." [Tradução: As pessoas bonitas, As pessoas bonitas; É tudo relativizado ao tamanho da tua torre do campanário; Não consegues ver a floresta pelas árvores; não consegues cheirar a tua merda quando estás de joelhos]. Para quem não sabe, Marilyn Manson, tal como Samuel Cruz, é uma personalidade propensa a criar polémicas: é um músico rock cujo teor das músicas é grotesco, provocador e decadente o que se reflecte na sua indumentária e maquilhagem. Marilyn Manson sabe claramente que a polémica vende discos mas o trabalho artístico dele, goste-se ou não, faz pensar e não nos deixa indiferente.

O problema central da escolha da mandatária para a Juventude do PS reside no facto de ser uma escolha inóqua - não consigo dizer nem bem nem mal. Não sei se foi uma boa ou uma má escolha porque não posso dizer nada sobre ela. E porque é que eu não posso dizer nada sobre a Filipa? Porque não sei quais são as suas ideias sobre a Política, sobre o Seixal e já agora... sobre Juventude.

A Filipa de Castro, ao contrário do Marilyn Manson, é uma "pessoa bonita": é uma modelo profissional que aparece continuamente nas revistas sociais. A Filipa de Castro não pode ser julgada por ser uma "pessoa bonita". Em rigor, a Filipa de Castro não pode ser avaliada como uma boa ou má escolha para ser mandatária para Juventude. Porquê? Porque não se sabe nada.

A lógica é simples - uma cara bonita e conhecida dá votos; da mesma forma que o Cristiano Ronaldo ajuda a vender produtos financeiros do BES, a Filipa de Castro ajudará a angariar votos para o PS - lá está: simples. Dessa forma, a figura dos mandatários para a Juventude é uma jogada promocional das campanhas, para encher o olho dos meios de comunicação social. A ideia do jovem é associada à ideia de beleza estética, vitalidade física... ausente de doença e longe da Morte. O jovem é bonito e atlético, lembrando subconscientemente o universo estético de riefenstahliano. Seguindo esta linha raciocínio, mais do que frustrado ou ofendido, a escolha de Filipa de Castro deixa-me triste. Triste porque os jovens acabam por não ter valor pelas suas ideias mas sim pelo seu corpo.

Corro o risco de ser injusto com o Samuel Cruz e com a Filipa de Castro mas não consigo parar de fazer relações entre esta escolha feita pela candidatura do PS Seixal e outras situações: o Povo da Liberdade - o partido Silvio Berlusconni - numa jogada claramente populista, escolheu para a lista um conjunto de mulheres atraentes, algumas antigas modelos profissionais, para integrar a lista para as últimas eleições ao Parlamento Europeu. O próprio Berlusconi desapareceu por alguns dias para fazer um "rejuvenescimento" físico.

E é impossível deixar de associar Filipa de Castro a Carla Patrocínio que, neste momento, está a destacar-se nesta campanha para as Legislativas pelas suas fotos mais ousadas que foram colocadas no Facebook, do que propriamente pelo seu alinhamento político e ideológico com o PS e José Sócrates.

Para tentar ser imparcial nesta análise, fui ao blogue do candidato do PS para informar-me das motivações desta escolha e cito o seguinte: "Samuel Cruz, candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal do Seixal, escolheu Filipa de Castro para Mandatária da Juventude da sua campanha pelo seu carisma e pelo que pode representar de positivo para o concelho do Seixal." Ora, se espremermos isto o que é que temos? Para mim, nada. Estou particularmente curioso saber o que é que a Filipa de Castro pode representar de positivo na campanha. Digo isto sem qualquer cinismo ou sarcasmo porque não sei qual é a mais valia dada pela Filipa de Castro ou de outra pessoa qualquer.

Nos vários comentários ao artigo publicitando a escolha de Filipa de Castro, destaca-se um: "Qual é o mal da mandatária?? Qual é o mal de não se ter ouvido ideias políticas da sua boca?? Com certeza que quem a convidou deve saber e isso a mim chega... Talvez a política em Portugal precise mais de pessoas completamente fora do circulo politico, com ideias novas (que para muitos podem parecer estúpidas, mas para outros poderão fazer algum sentido - esta a vantagem das democracias)." - concordo em absoluto! Só há aqui um pormenor que não encaixa - quais são as "ideias novas" da Filipa de Castro?

Estou a ser injusto com a Filipa de Castro - no programa 5 para a meia-noite, Filipa de Castro foi convidada por Fernando Alvim e disse que nutria alguma admiração por Pedro Santana Lopes... não explicou os contornos da sua simpatia pelo ex-primeiro ministro do PSD. Mas lá está, tirando isso e mais uma vez... nada. Fico à espera.

Reconheço que num universo político mediatizado, os olhos também comem! No entanto, era bom que a Política (e consequentemente os políticos...) fizesse com que as pessoas pensassem um pouco naquilo que andam a comer...